Cartilha 4

Recursos Financeiros
e Orçamento

Plano Municipal de Saúde 2026-2029

Concórdia do Pará - PA

Assessoramento Akapu Saúde

De onde vem o dinheiro da saúde?

A saúde pública de Concórdia do Pará não funciona só com dinheiro do município. O financiamento do SUS vem de três fontes, cada uma com regras próprias:

FonteDe onde vemComo chega
FederalGoverno Federal, via Fundo Nacional de Saúde (FNS)Transferência fundo a fundo, direto para a conta do Fundo Municipal de Saúde
EstadualGoverno do Pará, via Fundo Estadual de Saúde (FES)Transferência fundo a fundo ou convênios
MunicipalArrecadação do próprio município (impostos, taxas, transferências constitucionais)Dotação orçamentária da Prefeitura para o Fundo Municipal de Saúde
Na prática: quando você atende um paciente na UBS, o salário da equipe, os medicamentos, os insumos e a manutenção do prédio são pagos com recursos que vêm dessas três fontes. Se qualquer uma falha, o impacto chega na ponta.

O que é o Fundo Municipal de Saúde?

O Fundo Municipal de Saúde é a conta bancária onde entram todos os recursos destinados à saúde do município. Ele funciona como um "cofre" separado: o dinheiro que entra no Fundo só pode ser usado para ações e serviços de saúde.

As transferências federais (PAB fixo, PAB variável, incentivos de programas) caem diretamente no Fundo, sem passar pela conta geral da Prefeitura. Isso é o que se chama de transferência fundo a fundo: o Fundo Nacional de Saúde transfere para o Fundo Municipal de Saúde.

Por que isso importa? Porque garante que o dinheiro da saúde não seja desviado para outras áreas. E porque toda prestação de contas do SUS é feita a partir do que entra e sai do Fundo.


Os blocos de financiamento

Os recursos federais para a saúde são organizados em dois grandes blocos:

BlocoO que financiaExemplos
CusteioDespesas do dia a dia: salários, materiais, medicamentos, exames, manutençãoPAB fixo, incentivos das equipes de Saúde da Família, SAMU, vigilância, assistência farmacêutica
InvestimentoObras, equipamentos, ampliaçõesConstrução de UBS, compra de veículos, equipamentos de saúde bucal

A maior parte dos recursos que Concórdia recebe é de custeio: manter as equipes funcionando, comprar insumos, pagar profissionais. Recursos de investimento são mais pontuais e geralmente vêm por meio de emendas parlamentares ou programas específicos do Ministério da Saúde.


A obrigação dos 15%

A Constituição Federal e a Lei Complementar 141/2012 determinam que todo município deve aplicar, no mínimo, 15% de suas receitas de impostos e transferências constitucionais em ações e serviços públicos de saúde (ASPS). Isso não é opcional. É obrigação legal.

Descumprir o mínimo de 15% pode gerar:

Como Concórdia se saiu nos últimos anos?

AnoPercentual aplicadoSituação
202213,49%Descumpriu
202316,57%Cumpriu
202414,98%Descumpriu
202516,34%Cumpriu

O quadro é preocupante. Em dois dos quatro anos do último quadriênio, o município não atingiu o mínimo. Em 2024, o déficit foi de apenas R$ 5.367, o que mostra que faltou monitoramento, não dinheiro. Nos anos em que cumpriu, a margem acima dos 15% foi pequena: qualquer imprevisto poderia provocar novo descumprimento.

Lição para o PMS 2026-2029: o município precisa trabalhar com meta interna de 17% a 18%, garantindo uma margem de segurança. E precisa monitorar a execução mês a mês, não apenas no final do ano.

O que são emendas parlamentares?

Emendas parlamentares são recursos que deputados e senadores destinam a municípios por meio do orçamento federal. Para a saúde, esses recursos são uma fonte importante de custeio e investimento.

O processo funciona assim:

1
O parlamentar indica o recurso
2
O município cadastra a proposta no InvestSUS/FNS
3
O Ministério da Saúde analisa e aprova
4
O recurso é transferido para o Fundo Municipal de Saúde
5
O município executa e presta contas

Propostas de emendas de Concórdia para 2026

O município tem 4 propostas de emendas para o exercício 2026:

PropostaO que vai financiarÁrea
63000778935202600Materiais de consumo para APSSaúde da Mulher e outras ações de APS
36000778994202600Remuneração de profissionais da APSAtenção Primária (toda a rede)
36000779029202600Materiais para vacinação e controle de doençasVigilância e imunização
36000779081202600Remuneração de profissionais de média complexidade e SAMUAtenção especializada e urgência
Por que isso importa para você? Porque essas emendas financiam diretamente o trabalho que acontece na ponta. A emenda de materiais para vacinação (36000779029202600), por exemplo, garante insumos para busca ativa, mutirões de vacinação e controle de doenças transmissíveis. Se a emenda não for executada, esses insumos podem faltar.
Atenção: para que as emendas sejam liberadas, o município precisa ter o PMS aprovado, a PAS elaborada e o orçamento compatibilizado. Atraso nesses instrumentos pode travar a liberação dos recursos.

As metas do PMS que envolvem gestão financeira

A Diretriz 10 do PMS (Gestão, Eficiência e Participação Social) trata diretamente da organização dos instrumentos de gestão e da eficiência operacional. Mas a gestão financeira atravessa praticamente todas as diretrizes, porque nenhuma meta se cumpre sem recurso.

Metas de gestão e instrumentos

MetaO que significa20262029
10.1.1 Enviar PMS ao CMSO PMS precisa ser formalmente enviado ao Conselho todo ano1 envio1 envio
10.1.2 Monitorar o PMS quadrimestralmenteTrês avaliações por ano, que mostram se os recursos estão sendo bem aplicados3 avaliações3 avaliações
10.2.1 Alimentar o Banco de Preços em SaúdeRegistrar os preços que o município paga, para referência nacional1 alimentação1 alimentação
10.2.5 Ampliar cirurgias ambulatoriaisRealizar mais procedimentos no Centro de Saúde, reduzindo encaminhamentos2.2002.800

Metas de assistência farmacêutica que envolvem compras

MetaO que significa20262029
8.1.1 Manter Horus/e-SUS AF em 100% dos serviçosControle informatizado de medicamentos em todos os serviços100%100%
8.2.1 Realizar licitações para medicamentos e insumosGarantir abastecimento contínuo por meio de processos de compra regulares1 processo1 processo
Na prática: a licitação de medicamentos é um processo que envolve planejamento, pesquisa de preços, publicação de edital e execução do contrato. Se atrasa, a farmácia desabastece. Se o Banco de Preços não é alimentado, o município perde referência para negociar valores justos.

Como monitorar: RDQA, RAG e SIOPS

O dinheiro da saúde tem três mecanismos de acompanhamento que funcionam em ciclos:

RDQA (Relatório Detalhado do Quadrimestre Anterior)

Acontece três vezes por ano. Mostra como está a execução das metas e dos recursos no período. O Conselho Municipal de Saúde analisa o RDQA em audiência pública.

QuadrimestrePrazo de entrega
1o quadrimestre (jan-abr)Até 31 de maio
2o quadrimestre (mai-ago)Até 30 de setembro
3o quadrimestre (set-dez)Até 28 de fevereiro

RAG (Relatório Anual de Gestão)

Acontece uma vez por ano, até 30 de março do ano seguinte. Faz o balanço completo: o que foi planejado na PAS, quanto foi gasto, quais metas foram atingidas. O CMS emite parecer conclusivo sobre o RAG.

SIOPS (Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde)

É o sistema do Ministério da Saúde onde o município registra quanto arrecadou e quanto gastou em saúde. O SIOPS é a ferramenta que permite ao governo federal verificar se o município está cumprindo a obrigação dos 15%. A alimentação do SIOPS é obrigatória e o atraso pode gerar bloqueio de transferências.

Calendário resumido de prestação de contas

InstrumentoFrequênciaQuem analisa
RDQAQuadrimestral (3x por ano)CMS em audiência pública
RAGAnualCMS emite parecer conclusivo
SIOPSBimestralMinistério da Saúde / DATASUS

O que pode dar errado?

O diagnóstico financeiro do PMS 2026-2029 identificou riscos que afetam diretamente o trabalho das equipes:

1. Descumprimento do mínimo constitucional. Se o município não aplicar 15% em saúde, pode perder transferências federais. Isso significa menos dinheiro para manter equipes, comprar medicamentos e funcionar. O histórico de Concórdia mostra que esse risco é real.

2. Saldos não executados. O município acumulou mais de R$ 19 milhões em recursos COVID que não foram gastos (2022-2023). Recursos parados não melhoram a saúde de ninguém. Quando o município não consegue executar o que já tem, captar mais dinheiro não resolve.

3. Emendas travadas por falta de instrumentos. Se o PMS não estiver aprovado ou a PAS não estiver elaborada, as emendas ficam com impedimento. O dinheiro existe, mas não pode ser liberado.

4. Dependência de transferências. Como município de Porte I, Concórdia depende fortemente do dinheiro federal e estadual. Se os critérios de repasse mudam ou se há atraso nas transferências, o impacto é imediato no funcionamento da rede.


O que eu posso fazer?

Mesmo que você não trabalhe no setor financeiro, suas ações no dia a dia afetam diretamente os recursos da saúde. Veja como contribuir:

1. Registre tudo o que faz. Cada atendimento registrado no e-SUS AB, cada vacina lançada no SI-PNI, cada notificação no SINAN gera dados que justificam os repasses federais. Produção não registrada é produção que não existe para o financiamento.

2. Cuide dos materiais e equipamentos. Desperdício de insumos, uso inadequado de equipamentos e falta de manutenção preventiva consomem recursos que poderiam ser usados em outra frente. A economia de cada equipe faz diferença no orçamento total.

3. Participe do monitoramento. Quando a coordenação pedir dados para o RDQA ou o RAG, responda com agilidade e precisão. Esses relatórios mostram ao Conselho, ao Ministério e à sociedade se os recursos estão sendo bem aplicados.

4. Entenda o PMS da sua área. Se você trabalha na APS, saiba quais metas da Diretriz 1 dependem do seu trabalho. Se trabalha na Vigilância, conheça as metas da Diretriz 7. Quando as metas não são atingidas, o gestor precisa explicar por que, e essa explicação começa na ponta.

5. Ajude a evitar desperdício de emendas. As 4 propostas de emenda de 2026 financiam ações que passam pelas equipes. Se os materiais de vacinação chegarem e não forem usados, se os insumos de APS ficarem no almoxarifado, o recurso foi desperdiçado. Execute o que chegar.

6. Acompanhe os prazos. O RDQA tem prazo. O RAG tem prazo. O SIOPS tem prazo. Atrasos geram problemas para o município inteiro. Quando a gestão pedir informações dentro de um prazo, é porque existe uma obrigação legal por trás.


Resumo rápido

PerguntaResposta curta
De onde vem o dinheiro da saúde?Federal (FNS), estadual (FES) e municipal (receita própria)
O que é o Fundo Municipal de Saúde?A conta onde entram todos os recursos destinados à saúde
O que são os blocos de financiamento?Custeio (dia a dia) e Investimento (obras, equipamentos)
Concórdia cumpre os 15%?Em 2 dos 4 últimos anos, não cumpriu
O que são emendas parlamentares?Recursos indicados por deputados/senadores para o município
Como a prestação de contas funciona?RDQA (quadrimestral), RAG (anual) e SIOPS (bimestral)
O que eu posso fazer?Registrar produção, cuidar dos materiais, participar do monitoramento
Assessoramento Akapu Saúde